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Volume 1 - Origens da Inteligência
Capítulo 1 -
Introdução
(demonstração)
No mundo moderno poucos assuntos despertam tanto interesse quanto o conceito de Inteligência. Mesmo com esse interesse todo, inteligência é uma noção complexa, que resiste a definições fáceis. Nesta série de Seminários Digitais não vamos tentar definir essa palavra, mas vamos apresentar as características mais fundamentais dessa noção, de forma que possamos endender o que é inteligência, mesmo sem conseguir defini-la.
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Uma das expectativas deste Seminário Digital é esta: ao conhecer mais sobre os processos cognitivos que ocorrem em nosso cérebro, poderemos pensar sobre eles e isto poderá nos auxiliar a aumentar nosso desempenho |
| Este Seminário Faz Parte de Uma Série |
Este é o primeiro de uma série de volumes, todos com o título "A Natureza da Inteligência". Os demais volumes serão publicados sequencialmente. Ao terminar com esta série, você terá visto praticamente todas as principais noções relacionadas à inteligência humana, sob o prisma cognitivo e neurocientífico. Estes são os volumes planejados desta série:
Volume 1 - Origens da Inteligência (este volume)
Volume 2 - Conceitos, Categorias e Regras
Volume 3 - Memória, Associações, Priming e Aprendizado
Volume 4 - Raciocínio Indutivo, Dedutivo e Probabilístico
Volume 5 - Raciocínio Analógico e Causal
Volume 6 - A Inteligência da Linguagem
Volume 7 - A Cognição da Criatividade
Volume 8 - A Neurociência da Inteligência
Este volume (Origens da Inteligência) vai se preocupar em fornecer muito do material que irá servir de base para as discussões dos volumes seguintes. Além disso, vamos apresentar muita informação oriunda de pesquisas recentes, que não costuma ser mencionada por tratados sobre inteligência.
| Qual o Objetivo Desta Série? |
Existem milhares de fontes de informação sobre inteligência. Você pode consultar a Internet, pode comprar livros sobre Ciência Cognitiva, pode ler revistas especializadas, se inscrever em um curso específico de pós-graduação, etc. Em nenhuma dessas fontes você vai encontrar o tipo de material nem o enfoque que pretendemos nesta série. Isto ocorre porque nossa intenção aqui é observar esse tópico sob vários ângulos multidisciplinares. A informação que você encontra em um livro ou em um site na Internet é em geral focada na exposição de fatos e características das várias noções associadas a Inteligência, dentro de uma visão específica. Nossa preocupação nesta série é fazer você refletir sobre as múltiplas conexões que essa palavra tem com outras áreas do saber humano. Procuramos integrar disciplinas, ampliando a compreensão dessas interligações. Contudo, fazemos isso sempre suportando esses tópicos com os estudos mais recentes publicados em reputados journals e livros da área (veja a lista de referências bibliográficas).
Assim, neste volume vamos observar como o conceito inteligência pode ser entendido de acordo com aspectos matemáticos, evolucionistas, físicos, cognitivos, filosóficos e neurocientíficos. Procuramos observar os pontos fundamentais, aquilo que é essencial ter em mente para realmente compreender o assunto.
Dada a complexidade daquilo que pretendo expor, nada mais natural do que procurar enfatizar a didática e compreensibilidade de cada tema. Faço isso através da exposição de situações curiosas, exemplos e questões instigantes. É um processo no qual tentaremos simular uma dialética entre nós, pensadores, e os fatos do universo, como elementos a serem questionados e interpretados. Por essa razão, em vários pontos deste seminário vou convidar você a pensar e ponderar, de forma a procurar por suas próprias respostas.
| Isto Aqui É Um Livro? |
Embora existam certas semelhanças (divisão em capítulos, exposição centrada em texto, etc), isto não é um livro. Há duas diferenças básicas: este material não contém somente textos e fotos, mas também animações, vídeos, sons e programas interativos. Esses recursos não são usados de forma gratuita, mas apenas quando conseguem ampliar a didática da exposição. A segunda diferença é que você poderá contatar o autor a qualquer momento, para esclarecer suas dúvidas ou propor questionamentos. Por isso, acho que este material pode ser chamado de "seminário digital".
| Como Funciona o Seminário |
Durante os próximos capítulos iremos observar uma série de noções complexas e sofisticadas. Uma das intenções deste material é fazer você pensar. Por isso, frequentemente vou introduzir situações práticas que sirvam de motivação para a apresentação de um material teórico mais elaborado. Várias vezes quebro a linearidade do texto com quadros amarelos (como o apresentado no começo deste capítulo) no qual são sumarizados alguns pontos importantes. Quadros cinza são, em geral, tópicos relacionados a outras matérias ou esclarecimentos menores, como este [exemplo].
| [exemplo] Os quadros amarelos são declarativos, e não argumentativos. Todas as alegações que fazemos nos quadros amarelos serão justificadas no decorrer do texto. A diferença entre declarar e argumentar é importante, conforme analisamos mais profundamente em nossos seminários sobre argumentação. |
Também para favorecer o entendimento do material, muitas vezes mostramos figuras, animações, vídeos e sons, tudo com o intuito de servir de "exemplo sensório" para as noções expostas no texto. Conforme aprenderemos no decorrer desta série de seminários, é muito importante dispor de um "colchão sensório" no qual apoiar certos conceitos simbólicos e abstratos. Mesmo em áreas essencialmente abstratas como Matemática é útil manter essa conexão sensória, pois é através dessa experiência que podemos "aterrar" noções mais sofisticadas (o capítulo 8 deste volume elabora melhor esta questão).
| Siga o Fluxo Natural do Material |
É importante que você procure seguir o texto em sua sequência natural, contendo sua ansiedade de ver logo as conclusões ou as figuras mais bonitas. Idealizei este material para apresentar certas "surpresas" de forma paulatina. Muito do planejado efeito didático será perdido se você avançar seções ou pular para o final do material. Por isso, raramente uso links no meio do texto. Há um "fio da meada" que precisa ser seguido. Para auxiliar o correto desenrolar da exposição, procure ler o material que se encontra logo acima da área inferior da tela. Assim, sua visão não vai ficar atraída pelo material seguinte.
E lembre-se, a qualquer momento se você tiver alguma dúvida, poderá enviar perguntas ao autor. A intenção é fazê-lo compreender o assunto e esclarecer dúvidas. Vamos começar?
| Começando: Uma Experiência Simples |
Você sabe me dizer quanto é 11 vezes 11? Faça as contas, vai dar 121. Nada de surpreendente aqui. A coisa começa a ficar interessante quando fazemos outras operações similares a essa:
11 x 11
= 121
111 x 111 = 12321
1111 x 1111 = 1234321
Já percebeu alguma regularidade? Se você já percebeu uma regularidade, então não deverá estranhar o próximo resultado dessa sequência:
11111 x 11111 = 123454321
Essa sequência parece dispor de um tipo de "regra" que poderíamos facilmente descobrir. Você já descobriu? Parece que devemos escrever o resultado como sendo os dígitos em sequência a partir de 1 (1, 2, 3...) até um número que é exatamente igual ao número de "1" de cada operando. Assim, no exemplo logo acima, cada operando tem 5 dígitos (11111) e por isso o resultado vai de 1 até 5 (12345) e depois desce em ordem reversa até 1 (4321). É uma situação curiosa e inesperada. Acabamos de descobrir uma nova propriedade da aritmética decimal.
A importância dessa descoberta aparece quando desejamos saber o resultado de uma operação mais complexa: quanto é 111111111 x 111111111 (cada operando tem nove dígitos 1)? Neste caso, a maioria das calculadoras não conseguirá nos dar o resultado completo. Mesmo assim podemos obter o resultado, pois basta seguir o que foi induzido das situações anteriores:
12345678987654321
Pode não parecer, mas várias das operações mentais que acabamos de executar requerem um nível de inteligência muito sofisticado, quando comparamos nosso cérebro com o dos outros animais. Pense por um instante como seria surpreendente se essa descoberta toda tivesse sido feita por um cachorro. Iríamos todos achar que esse animal era muito inteligente [cães].
| [cães] Na verdade, cachorros são animais extremamente inteligentes, embora não disponham de uma inteligência simbólica como a nossa. Para mais informações sobre isto, veja Budiansky (1998) (veja página de referências) |
Para executar a sequência de operações que nos levaram à descoberta da regra, tivemos que perceber uma série de regularidades. Observamos que os exemplos são feitos usando-se como operandos apenas números compostos pelo dígito 1 (111 x 111). Percebemos que a cada novo exemplo fazemos as operações com um dígito a mais (11 x 11, depois 111 x 111, etc.). Notamos que os resultados apresentam números cujos dígitos crescem e depois decrescem. Reparamos que o crescimento se dá até atingir um dígito equivalente ao tamanho de cada um de nossos operandos.
Toda essa série de "pequenas descobertas" aconteceram em nossas mentes talvez de forma relativamente automática. Seria isto uma indicação de um princípio básico em funcionamento? Poderia parte de nossa inteligência depender de um processo tão banal quanto identificar repetições e regularidades?
| O Substrato da Inteligência |
Longe de ser algo específico do mundo da matemática - um mundo simbólico e abstrato por natureza - veremos nos próximos capítulos que essa habilidade de perceber regularidades é, na verdade, essencial durante as nossas experiências sensórias, principalmente quando aquilo que estamos captando é desconhecido por nós. Para exemplificar esse ponto, tente descobrir qual a origem do som abaixo (clique na seta para iniciar a reprodução; este exemplo também serve para validar seu browser, que precisa ter o plug-in Flash instalado):
No capítulo 2 vamos interpretar esse e vários outros sons, explicando suas origens e analisando os seus componentes. Usaremos essas estranhas experiências como suporte para o material teórico que será elaborado, principalmente, nos três capítulos finais deste volume. O objetivo é entender qual a importância desses mecanismos de percepção de padrões na inteligência humana e principalmente o que ocorre com nossa percepção quando somos expostos a esse material durante algum tempo.
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Percepção de regularidades e computação da frequência de ocorrência de eventos é um dos pilares da inteligência biológica |
Através do estudo dessa característica de nosso cérebro nós vamos entender como muito de nossa cognição é formada e como se desenvolve de forma hierárquica e progressiva. Vamos apresentar recentes experimentos cognitivos que demonstram que boa parte dessa habilidade já está disponível em nosso cérebro desde nossa mais tenra infância, embora ela esteja, nesses casos, dirigida à resolução de um tipo de questão bastante diferente do problema matemático apresentado acima.
| Um Resumo do Que Virá |
Como já foi dito, este material foi composto com a preocupação de apresentar uma visão ampla do tema. Essa visão ampla só se obtém quando se procura por subsídios de diversas disciplinas. O caráter multidisciplinar está explícito na divisão de assuntos dos capítulos, conforme pode ser visto no quadro abaixo:

Este é um bom momento para fazer um pequeno resumo dos temas que serão abordados em cada um desses capítulos:
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Capítulo 2 -
História de Uma Briga Milenar Talvez esta seja uma das mais longas e complicadas brigas filosóficas de todos os tempos: os Racionalistas contra os Empiristas. Este é um assunto de suma importância para todos aqueles que se preocupam com a inteligência humana. Neste capítulo vamos fazer uma breve retrospectiva dessa contenda e iniciar a preparação do terreno para uma das teses centrais deste Seminário Digital: os Racionalistas não podem viver sem os Empiristas e vice-versa! |
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Capítulo 3 - Os Padrões da
Natureza Às vezes pode parecer óbvio demais, outras vezes pode parecer uma inverdade. Mas existe em nosso universo uma imensa quantidade de padrões regulares. Neste capítulo vamos observar alguns deles, principalmente para contar com exemplos que permitam o entendimento dos capítulos que seguem. Nossa exploração irá contar com diversos exemplos visuais e sonoros. Por isso, use um computador com placa de som instalada para obter o melhor deste capítulo. Vamos ouvir os sons do Sol, os assobios de Júpiter e os prótons na ionosfera terrestre. |
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Capítulo 4 - A Evolução do
Cérebro Existe uma grande variação de tipos e tamanhos de cérebros na fauna do planeta Terra. Por que o cérebro evoluiu? Por que é necessário dispor de um cérebro? Por mais tola que pareça essa questão, suas possíveis respostas costumam iluminar nosso entendimento acerca de nós mesmos. Vamos observar quais as forças da evolução que produziram organismos tão díspares quanto seres humanos e baratas. |
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Capítulo 5 - Informação,
Probabilidade e Redundância Juntando muitos tópicos dos capítulos anteriores, vamos observar de maneira mais formal o que se pode entender por informação, ruído e redundância. Falaremos de Claude Shannon e da sua criação, a Teoria da Informação. Este capítulo também vai mostrar o que é probabilidade transicional e com isso preparar o terreno para o cerne deste Seminário Digital, que começará a ser exposto a partir do próximo capítulo. |
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Capítulo 6 - O Estranho
Linguajar das Mamães Neste capítulo, de título certamente bastante estranho, vamos começar a investigar a origem mais básica da inteligência, aquela que ocorre nos bebês. Veremos como a pesquisadora Patricia Kuhl propôs uma teoria que explica porque as mamães conversam com seus bebês usando um linguajar que exagera na duração das vogais. Longe de ser mera curiosidade pediátrica, este é um dos primeiros momentos nos quais percebemos uma forte tendência de aprendizado e desenvolvimento nos bebês humanos, algo que irá modelar muito da cognição futura, principalmente no relativo à linguagem. |
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Capítulo 7 - Os Estatísticos
Mais Jovens do Mundo Este é o cerne deste volume. Aqui mostraremos as descobertas da Dra. Jenny Saffran e colegas dando conta da incrível capacidade de percepção de regularidades dos estatísticos mais jovens do mundo: os bebês. Faremos daquilo que descobrirmos aqui nosso trampolim para ligar as duas matérias filosóficas que, como vimos no capítulo 2, ainda hoje estão em conflito. |
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Capítulo 8 - O Berço dos
Símbolos A principal capacidade cognitiva dos humanos é esta: nosso fantástico potencial para manipular símbolos arbitrários. Mas longe do que ensinam os teóricos da lógica ou da linguística, essa capacidade não é "isolada" e não pode existir de forma autônoma, pelo menos em organismos que precisam interagir com um ambiente natural. Os símbolos precisam de um suporte dado exatamente pelas capacidades estatísticas e perceptuais que discutimos nos capítulos anteriores. Veremos aqui quais as posições dos principais teóricos acerca do assunto "aterramento de símbolos", um tema essencial para compreender como a hierarquia da cognição se desenvolve. |
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Capítulo 9 - Conclusões Faremos neste capítulo um sumário das principais idéias e implicações de tudo o que vimos anteriormente. Mas além de mostrar o "quadro inteiro", veremos também o que falta falar sobre inteligência, justamente os tópicos que serão tratados nos demais volumes da série "A Natureza da Inteligência". |
Espero que você esteja pronto para esta viagem. Várias vezes vai ser necessário um pouco de reflexão e concentração. Mas o prêmio por este esforço é bastante claro: entender melhor uma das principais características que nos distingue dos demais animais deste planeta.
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