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Capítulo 9 - Conclusões

Neste volume vimos que uma parte da inteligência humana não pode ser representada sob a forma de símbolos. Esse "nível subterrâneo", contudo, é essencial para que se possa dar significado a esses símbolos.

    O Significado de Símbolos
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O trágico evento com o ônibus espacial Columbia ceifou a vida de 7 astronautas, no início de 2003. Como é costume em acidentes desse tipo, toda a NASA, além de grupos independentes, passaram a investigar minuciosamente as possíveis causas do acidente. Justamente quando estamos diante de um problema de difícil resolução parece ser importante "sentir" o problema não apenas através de suas descrições simbólicas e abstratas, mas sim através de experiências reais. Foi este exatamente o pensamento do almirante Harold W. Gehman Jr., líder de uma das comissões independentes que investigou o evento:

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Os grupos de investigação acreditam serem estes destroços o que restou do cone do nariz do ônibus espacial Columbia.

Folha de S. Paulo, 5 de Fevereiro de 2003

Sentir na pele os detalhes do acidente é útil neste caso porque instrui os investigadores sobre pontos que não podem ser expressos simbolicamente. Como vimos, parte do aprendizado que obtemos vêm por causa da investigação estatística dos impulsos sensórios. E esse tipo de aprendizado é tanto mais eficaz quanto mais desconhecido é o problema (ou a solução do problema), precisamente a mesma situação enfrentada pelos bebês, quando procuram entender seu meio ambiente.

    Idiosincrasias da Percepção
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Mostramos no decorrer deste volume que a percepção estatística é um processo básico e fundamental da cognição. É inegável a importância desses processos. Mas, infelizmente, nem tudo é um mar de rosas. Há um lado ruim desse processo.

Vimos no capítulo 6 que nossa percepção se deforma para poder discriminar melhor os impulsos sensórios a que somos submetidos com maior frequência. O lado ruim disso é que várias vezes podemos perceber alguns padrões mesmo quando não há nenhum. Isto dá origem a diversos tipos de ilusão, muitas das quais surpreendentes:

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Todas as linhas da figura acima são retas, não há nenhuma delas encurvada. Características específicas da organização dos neurônios do nosso córtex visual provocam essa ilusão em nós. Não há como escapar. Outra forte ilusão é o chamado Quadrado de Kanizsa:

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O quadrado branco nessa figura só existe em nossas mentes (cubra com os dedos os quatro "pacmans" pretos e você vai ver que o quadrado desaparece).

Mas será que essas ilusões também ocorrem em bebês com pouca idade? Em outras palavras, será que são características desenvolvidas por experiência ou genéticas? A resposta a essas questões, até pouco tempo atrás, eram pura especulação. Hoje já se tem evidências que sugerem um possível candidato: essas ilusões não são genéticas, são desenvolvidas, ou seja, são decorrência da maturação de nosso aparelho perceptual, exatamente como mostramos no capítulo 6. Um estudo por Csibra et al. (2000) mostrou que bebês de 6 meses de idade não reconhecem a ilusão, enquanto bebês de 8 meses já reconhecem.

baby5.jpg (25603 bytes)Para investigar experimentalmente essa questão, Csibra e colegas utilizaram um "capacete geodésico" capaz de capturar as oscilações EEG (eletroencefalograma) em muitos pontos simultaneamente. Cada ponto passa por um processador de sinais que, uma vez convertido para sinais digitais, foi consolidado em um computador. O processo é não-invasivo e, pela alegria do bebê na foto ao lado, deve ter sido divertido (a mãe do bebê, obviamente, é a que segura-o no colo). O bebê foi colocado a observar dois tipos de figuras: uma mostrando a ilusão de Kanizsa e outra com as mesmas figuras "pacman", mas sem formar a ilusão. O teste foi aplicado em 11 bebês de 6 meses e 11 de 8 meses, com os resultados assim distribuídos:

Figura Apresentada kanib.gif (772 bytes)
Bebês de 6
meses
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Bebês de 8
meses
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As regiões avermelhadas denotam áreas neurais mais ativas. Nota-se que ambos os casos acima não apresentam ativação muito intensa. Porém, a coisa muda quando a figura apresentada é a ilusão:

Figura
Apresentada
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Bebês de 6
meses
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Bebês de 8
meses
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Aqui nota-se que os bebês de 8 meses apresentam uma grande ativação da área frontal. Em dois meses os bebês desenvolveram seus cérebros o suficiente para perceber a ilusão de Kanizsa.

A percepção ganha pelos bebês não é apenas um mero efeito neural. Eles ganharam algo muito similar à nossa percepção. Um experimento adicional (Csibra 2001) demonstrou que bebês de 8 meses encaram o quadrado de Kanizsa como um objeto, capaz de ocultar outros objetos atrás dele, exatamente como nós adultos fazemos. 

    Efeitos Perversos da Percepção
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Sabendo de nossa tendência a deformar nossa percepção para se adequar aos estímulos que recebemos, fica fácil entender porque temos uma exagerada propensão para "encontrar" padrões em sequências aleatórias. O exemplo abaixo é típico desta situação: um dos padrões que temos mais fortemente fincados em nosso cérebro é o padrão de rostos humanos. Reconhecer rostos e determinar minúsculas variações são capacidades evolucionariamente importantes. Por isso, nosso mecanismo perceptual se esmera em apontar o primeiro sinal de "faces", mesmo que originárias do acaso:

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Esta é a famosa "face do diabo", resultante das chamas da colisão do jato de passageiros na torre do WTC, em 11 de Setembro de 2001. Dada a imensa carga dramática do episódio, é difícil não ficar tentado a achar algum "sentido" nessa imagem. Porém, basta lembrar daquilo que vimos neste volume: nossos mecanismos perceptuais estão preparados para "achar" faces em qualquer tipo de manifestação natural randômica, ainda mais quando há fortes emoções envolvidas.

    Problemas Com Português
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Escrever bem é difícil. Escrever corretamente, então, é mais difícil ainda. Diga-me o que você acha da frase abaixo:

Então, como já havia sido feito várias vezes no passado, os deputados resolveram tratar desse assunto como uma excessão, algo que pudesse até mesmo ser escondido dos outros parlamentares.

Será que há alguma coisa errada com essa frase? Se você ainda não achou, dê uma olhada na palavra "excessão". Está errado, deveria ser "exceção". Mas as vezes deixamos escapar coisas como essa. O ponto que quero enfatizar aqui é o costume: se no correr dos dias observarmos muitas vezes essa palavra grafada de forma incorreta, teríamos um forte suporte estatístico para não desconfiar do erro. Isto nos faria cometê-lo com maior frequência. Portanto, mesmo nosso aprendizado da língua pode "deteriorar" com o tempo, na medida em que a proporção de nossas leituras de textos incorretos aumente.

    Um Final Para a Contenda?
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Como os Racionalistas Radicais podem continuar afirmando que todo o conhecimento humano deriva do pensar? Vimos que existe muito a ser derivado apenas pelo aprendizado estatístico e probabilístico feito sobre nossas impressões sensórias. Esse aprendizado é de um nível tão básico que mesmo os bebês o utilizam. Imersos em um oceano de sensações, os bebês são mestres em localizar padrões que se repetem e com isso conseguem iniciar a formação de sua estrutura cognitiva hierárquica.

Claro, o Racionalismo é necessário para que esse conhecimento tome forma simbólica e seja passado de pessoa a pessoa por via linguística. Muito daquilo que sabemos, como adultos, veio por essa forma simbólica. Basta lembrar quantos livros lemos, quantas aulas assistimos, quantos diagramas examinamos. No final das contas, como foi dito várias vezes, a briga entre Racionalistas e Empiristas é artificial, pois ambos os processos são necessários (mas nenhum, isoladamente, é suficiente).

Em futuros volumes desta série vamos observar outros suportes para a posição Empirista. Mas vários volumes vão se dedicar exclusivamente a métodos Racionalistas. Para entender a Inteligência é necessário entender essas duas posições.

Espero que você tenha gostado deste material. Se você achou algum ponto que poderia ter sido melhor explicado ou se tem algum detalhe com o qual não concorde, envie uma mensagem ao autor. Vou apreciar ler seus comentários.

FIM                             Retorna ao Menu Principal


© 2003 Sergio Navega
Versão deste capítulo: 1.1 (Março 2003)
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