Capítulo 6 - O Estranho Linguajar das Mamães
Já temos elementos suficientes para executar nossa primeira "junção" de diversas áreas do conhecimento humano. Afinal, um dos principais objetivos desta série de seminários é justamente promover essa incomum multidisciplinaridade.
Vimos que a seleção natural "molda" os organismos segundo um critério de aptidão para a sobrevivência. Também vimos que essas adaptações se dão lentamente, de geração em geração. Em períodos de intensas mudanças climáticas, pode ser difícil para uma determinada população se adaptar rapidamente. Por essa razão, a evolução propiciou o nascimento de cérebros, que além de controlar o ciclo percepção/ação, também é capaz, nos organismos mais complexos, de aprender.
| Quanto mais poderoso o cérebro de uma espécie, menor sua carga de comportamentos geneticamente determinados. Um bebê humano "conhece", ao nascer, muito menos, em termos relativos, do que uma gazela. A gazela já consegue dar seus primeiros passos algumas horas após seu nascimento, enquanto para bebês humanos, isso só ocorre após muitos meses de intenso esforço. |
O efeito desse cérebro mais complexo nota-se quando se considera o tipo de aprendizado que um bebê é capaz. Para olhos leigos, parece que os bebês são passivos, meros observadores da agitada realidade ao seu redor. Isto está longe da verdade: bebês desenvolvem-se intensamente durante os primeiros meses de vida, e boa parte daquilo que recebem por via sensória irá determinar (ou contribuir fortemente) para suas futuras habilidades. Este capítulo vai mostrar uma especial forma de aprendizado que, em poucos anos, modifica o tratamento auditivo das crianças de forma dramática.
| As Atividades Secretas de um Bebê |
Exceto quando estão chorando, bebês humanos passam quase despercebidos. Indefesos, poderiamos usá-los como exemplos de organismos muito pouco ativos. Mas durante esse período, os bebês estão, na realidade, ativamente construindo uma importante base perceptual, e aqui vamos ver como isso ocorre no caso específico da linguagem sonora (processos similares também ocorrem com a visão).
O psicólogo Peter Jusczyk (inesperadamente falecido em Agosto de 2001)
desenvolveu pesquisas que procuravam entender como os bebês se preparavam para o futuro
desempenho linguístico, principalmente no relativo à percepção da linguagem. Ele notou
que os bebês começam a identificar palavras em termos individuais a partir dos 7 ou 8
meses de idade. Esse processo chama-se de segmentação de palavras. Em uma de
suas experiências, ele observou que bebês de 6 meses de idade ouviam palavras em Inglês
e em Holandês com igual interesse. Jusczyk teve o cuidado de experimentar tanto com
bebês americanos quanto com bebês holandeses. O surpreendente ocorreu ao fazer os mesmos
testes com bebês de 9 meses de idade: bebês americanos ouviam com maior interesse
uma lista de palavras da mesma linguagem que seus pais (Inglês). O mesmo ocorria com
bebês holandeses, que mostravam preferência para as palavras em Holandês. Em Holandês,
por exemplo, palavras iniciadas com a consoante "k" eram explicitamente
pronunciadas. Já em Inglês, palavras como "know" são pronunciadas com o
"k" mudo. Essa (e muitas outras experiências similares) indicam que existe uma
importante transição peceptual ocorrendo nessa faixa de idade.
Jusczyk revela que bebês preferem, logo antes de iniciar o aprendizado de palavras, formas que são típicas de sua linguagem nativa, com os mesmos tipos de padrões de reforço e combinações de fonemas que são encontrados nessa linguagem. Notavelmente, antes dessa fase (menos de 5 meses de idade) bebês conseguem discernir homogeneamente diferenças entre as unidades fonéticas utilizadas em todas as linguagens humanas (Eimas, Miller e Jusczyk 1987). Que ocorre após esse período? Por que isso muda com a idade?
| As Investigações de Patricia Kuhl |
A Dra. Patricia K. Kuhl (University of Washington) é uma das maiores autoridades no desenvolvimento fonológico e linguístico de crianças e bebês.
A tese principal da Dra. Kuhl é que a experiência linguística modifica a
percepção. Uma de suas observações está relacionada à forma com que as mamães
tratam seus bebês. Praticamente todas "conversam" com seus filhos de uma forma
muito especial, chamada de "motherese", ou a linguagem das mamães. Ela postula
que essa tendência das mamães auxilia o desenvolvimento da percepção fonológica de
seus bebês:
"We think that infant-directed speech (or baby talk) plays an important role because it is clearer speech, which likely helps in establishing idealized pronunciation of the sounds of a language"
Patricia Kuhl
Se você tem (ou teve) bebês em sua casa, vai ver que até mesmo as "tias, irmãs e cunhadas" sofrem desse hábito de falar de forma engraçada. Mesmo alguns homens usam ocasionalmente esse tipo de linguajar, embora as mulheres pareçam ser notoriamente superiores neste aspecto. Veja o exemplo abaixo:
A voz acima é de uma mãe americana, mas é fácil reconhecer os típicos trejeitos vocais que são também usados por mães brasileiras ou de outros países. Há um claro exagero nas vogais. Kuhl percebeu que bebês de 5 meses de idade começam a balbuciar principalmente três vogais: "ee", "ah" e "oo", que são as mesmas vogais exageradas por suas mamães (e mais: esses exageros são praticamente universais, não importando a nacionalidade da mãe). Qual a finalidade dessa forma de comunicação? Que efeito teria isso nos bebês?
| Americanos Contra Suecos |
A Dra. Kuhl testou bebês americanos e suecos, observando que eles categorizam de forma diferente vogais similares. Em um de seus testes foi usado a vogal /i/ (como em "peep") em contraste com a vogal /y/ (como em "fye"). A diferença é pequena, mas é essencial para distinguir uma da outra. E é isto que pode fazer a pessoa reconhecer ou não uma palavra falada. Cada tipo de vogal acaba formando em torno de si uma espécie de "grupo" similar. Com o progressivo acumular de itens fonológicos similares ao "protótipo central", começa a se desenvolver um mecanismo perceptual que atrai os demais elementos para esse centro. Kuhl denominou esse fenômeno de "efeito perceptual magnético" (perceptual magnet effect). A figura abaixo ajuda a entender.
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| Este é o estado inicial, a situação típica em bebês de idade inferior a 5 meses. Ainda não existe uma definição muito forte de um protótipo. Cada categoria sonora é um potencial candidato a se transformar em um protótipo. | Conforme as experiências auditórias se sucedem, o cérebro do bebê começa a aglutinar os diversos tipos de itens fonológicos em torno de um item central, o prótótipo. |
Bebês americanos demonstraram o efeito magnético apenas na vogal /i/, e não na /y/. A montagem desse protótipo ocorreu porque a experiência auditiva desses bebês é diferente da dos suecos. Nestes últimos, o protótipo foi montado em torno da vogal /y/, tratando a vogal /i/ como não protótipo. Isso ocorreu em bebês de 6 meses de idade, sendo considerada essa a menor idade onde se verifica esse fenômeno. Portanto, o efeito perceptual magnético ocorre antes do aprendizado de palavras. Isto tem importantes implicações para o assunto deste volume:
| Antes mesmo de aprender palavras de uma língua, os bebês e crianças já dispõe de um sistema perceptual adaptado para reconhecer o material que será ouvido. Percepção precede o aprendizado de símbolos. |
Retornaremos a este importante tópico no capítulo 8, onde vamos observar uma hierarquia que começa com mecanismos perceptuais e avança até os símbolos e proposições da linguagem.
| As Frequências Formantes |
Os sons que produzimos com nossa voz são muito complexos. Ao mesmo tempo, são bastante característicos, sendo diferentes de qualquer outro som produzido pela natureza. Ouça a seguir pessoas de diversas nacionalidades falando o mesmo texto.
Imagine o que ocorre com um bebê que nasce em uma família de uma dessas nacionalidades e escuta seus pais praticamente o tempo todo. Durante essa fase inicial (logo após o nascimento) o bebê forma boa parte de seus "detetores perceptuais", circuitos neurais que se especializam em reconhecer (identificar) cada uma das características (padrões) mais importantes. Os padrões mais salientes são consecutivamente reforçados e isto faz o bebê concentrar seus recursos neurais no processamento dessas características, mesmo que isso signifique "perder" a capacidade de identificação de outras características sonoras.
Precisamos entender o que significa "padrões salientes". É saliente tudo aquilo que se repete (e, portanto, reforça a nossa memória). É saliente também tudo aquilo que tem força, ou seja, que ocorre com característica nitidez. Em termos fonológicos, isto tem relação com as frequências formantes, o grupo de frequências de um fonema que são mais fortes e característicos. O quadro abaixo dá mais detalhes sobre isso.
| Frequências Formantes são aquelas regiões do espectro de áudio na qual a concentração de energia é alta, comparada com as demais áreas. Nos diagramas abaixo, três formantes estão marcadas. Perceba que são formantes diferentes, pois as vogais são distintas. | |
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| O diagrama acima mostra a distribuição de frequências correspondentes à vogal /i/ do Inglês, como em "heat", que se pronuncia como /hít/. | Acima temos a distribuição de frequências para a vogal /a/ do Inglês, como em "hot", que se pronuncia /hát/. |
| Por Que Japoneses Falam Englaçado |
Todos sabem o que vai acontecer se pedirmos a um nativo Japonês para falar "O rato roeu a roupa do rei de Roma". O lato loeu a loupa...
É interessante notar que um descendente de japoneses que tenha sido criado desde bebê aqui no Brasil não terá nenhuma dificuldade em repetir a frase acima corretamente. Qual a origem desta diferença? Por que isso só ocorre com os nascidos no Japão? Patricia Kuhl novamente nos dá uma luz.
Suas experiências confirmam porque é difícil para os japoneses identificarem aquilo que, por exemplo, diferencia a palavra "rake" (ancinho) de "lake" (lago). Por incrível que pareça, para o sistema auditivo de um japonês adulto, não há diferença entre essas palavras! E mais: como ele nunca foi utilizado para essa identificação quando criança, também não se preocupou em corrigir sua própria pronúncia.[ação].
| [ação] Lembre-se do que foi visto no capítulo 4: somos todos seres que precisam operar segundo um ciclo de percepção/ação. Além de nossa percepção ser alterada por aquilo que captamos com nossos sentidos, ela também se altera de acordo com as ações que praticamos. Assim, sem perceber a diferença fonológica entre /r/ e /l/, os japoneses também não tem oportunidade de praticar como pronunciá-los. |
Isto pode parecer uma desvantagem exclusiva dos japoneses em relação aos ocidentais. Contudo, vamos ver que mesmo os que percebem a diferença entre /r/ e /l/ também tem certas idiosincrasias perceptuais (os ocidentais tem, por exemplo, grande dificuldade em entender linguagens "cantadas", como o Tailandês). Como todos nós temos uma ou outra "desvantagem perceptual", começa a ficar claro que a percepção de todos nós dispõe de várias distorções. Nossa próxima seção vai mostrar que nenhum de nós tem uma percepção realmente fidedigna da realidade (este é um assunto que dá um livro inteiro com considerações filosóficas).
| A Percepção Distorce a Realidade |
Conforme nossas experiências sensórias vão se sucedendo, nosso cérebro vai gradativamente procurando por elementos essenciais dessas experiências. Afinal, estamos embebidos em um meio cheio de regularidades, mas também cheio de processos caóticos. Cérebros são órgãos que precisam localizar e explorar essas regularidades (um importante paper sobre esse assunto é Barlow(2001)).
Mas justamente por precisarem se adaptar às regularidades específicas do "ambiente do momento" (ou, em outras palavras, justamente por não poderem ser totalmente determinados em termos genéticos), os cérebros de bebês têm que gradativamente se adequar ao tipo de material sensório a que são expostos. Disto decorre um processo de "deformação" (warping) perceptual, no qual certas características do material sensório são reforçadas em detrimento de outras características. Por isso, nenhum de nós percebe a realidade como ela realmente é, mas sim como nosso cérebro "constrói". O quadro abaixo (adaptado de Kuhl (2000a)) mostra uma representação do que ocorre.
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| O diagrama acima mostra como o cérebro de um bebê recém nascido interpreta o material auditivo que recebe. Cada círculo representa o encontro entre duas frequências formantes. No sentido horizontal são colocadas as frequências de uma formante específica, no vertical de outra formante. Pela regularidade da distribuição, todas as possibilidades de combinação são igualmente e homogeneamente contempladas, o que faz do bebê um "ouvinte equilibrado", apto a distinguir nuances que os adultos não conseguem mais. |
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| Com a exposição ao material auditivo de seu meio ambiente (principalmente do que é ouvido das conversas de seus pais), o bebê americano (e brasileiro também, neste caso) vai formando núcleos específicos para distinguir, por exemplo, /ra/ de /la/. O "perceptual magnet effect" cuida de atrair em torno de um protótipo a maioria das formantes associadas. Desta maneira, aparecem dois núcleos responsáveis pela identificação dos fonemas diferentes. Note que a distribuição, que era regular, passou a ser mais específica. |
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| Este é o caso de um bebê japonês. Como ele não ouve de seus pais as vocalizações de /ra/, sua distinção entre essa vocalização e o /la/ é falha. Sua percepção ficou sem ter como reparar nas fundamentais características que distinguem uma vocalização de outra. Seu cérebro se "acostumou" a distinguir apenas o /la/, e não o /ra/. |
Embora nosso tema aqui tenha sido a percepção auditiva, processos similares também ocorrem com os outros sentidos, notadamente com a visão. Isto nos coloca diante de um panorama no qual muito de nossa percepção é definida por nossas experiências enquando bebês. Note, porém, que aquilo que é aprendido durante essa fase é apenas o começo de uma grande jornada. Essa base perceptual não sofre muitas alterações durante nossa vida adulta, pois durante essa fase aquilo que realmente nos ocupa é relativo a níveis mais altos de nossa arquitetura cognitiva, um tópico que veremos em mais detalhes no capítulo 8.
| O Período Crítico |
Falta mais um detalhe para completar o argumento central deste capítulo: embora nós tenhamos, quando adultos, uma imensa capacidade de aprendizado perceptual, durante essa fase de nossa vida não temos mais o mesmo tipo de capacidade dos bebês. Isto ocorre por causa de uma curiosa situação, conhecida como "período crítico". Após os primeiros anos da infância, nossa habilidade de perceptualmente aprender algumas coisas fica reduzida. É como se tivéssemos uma estreita faixa de tempo, logo no início de nossas vidas, no qual precisamos aprender tudo o relativo aos níveis iniciais da percepção, aqueles mais próximos dos nossos sentidos. Esses níveis iniciais são aqueles onde é dado o tratamento inicial aos materiais sensórios, aqueles que lidam com a imensa quantidade (além de ruído) dos impulsos que recebemos.
| Conclusão: Somos Macacos Espertos |
Durante o capítulo 4, pintei um quadro no qual não diferenciamos muito claramente os humanos dos outros animais. A linguagem é uma das características que é tida como essencialmente humana. Mas as descobertas mais recentes conseguem nos surpreender.
O Prof. Marc Hauser (Harvard
University) é um dos maiores estudiosos da cognição animal (em particular dos
primatas). É dele a seguinte frase:
"Nós ainda não sabemos quais os mecanismos em nosso
cérebro que nos permitem discriminar linguagens diferentes, mas já sabemos que esses
mecanismos não estão presentes unicamente nos humanos"
Marc Hauser
O professor Hauser desenvolveu um experimento com sagüis de tufo branco (cotton-top tamarin) e bebês franceses. Ambos foram expostos a palavras em holandês (através de alto-falantes) até ficarem entediados. Quando o idioma foi alterado para outra linguagem, ambos (bebês e os sagüis) tiveram nítida demonstração de interesse. A experiência incluiu também a exposição a sentenças em reverso, com o surpreendente resultado de nenhum interesse por parte tanto dos bebês quanto dos macacos:
"Playing the languages backward results in sounds that
no vocal tract can produce.
There's nothing to discriminate", observou Hauser.
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Um sagüi de tufo branco |
Tanto os bebês quanto os macacos percebem sutis mudanças de ritmos entre linguagens. Ambos dispõe de sofisticados cérebros, capazes de interpretar e categorizar uma variedade de sinais sensórios a que estão expostos. Mas de alguma maneira, os seres humanos conseguem se diferenciar. Embora só veremos as principais diferenças que nos caracterizam em futuros volumes, o próximo capítulo vai mostrar onde a coisa começa.
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© 2003 Sergio Navega
Versão deste capítulo: 1.2 (Março 2003)
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